quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Uma declaração dos que nada tem e tudo fazem, contra os que tudo tem e nada fazem"

Petter Baiestorf, diretor dos filmes "Doce Avanço da Faca" e "Ninguém Deve Morrer", em cartaz no Cineclube Central.

Sangue, esperma e pólvora! Combinação explosiva sempre presente na obra de Petter Baiestorf - autor do clássico gore “Monstro legume do espaço” -, o catarinense da cidadezinha de Palmitos é um autor polêmico e prolífero. Com mais de 40 filmes no currículo, nos mais diversos formatos, Peter é um controvertido contestador, com uma estética crua e inovadora, causando o impacto pelo impacto, ao melhor estilo dadaísta. Ao longo da carreira as imagens careceram de conteúdo, e o videomaker buscou deglutir sociólogos, filósofos, pensadores que lhe dessem bagagem para a estruturação de metáforas, na perspectiva do anarquismo. Com os amigos da faculdade fez o primeiro filme em 92, e não parou mais, sendo precursor das produções independentes em vídeo brasileiro.

Confira na Integra a entrevista que saiu editada na Zine Central de Julho!

“Uma declaração de guerra dos que nada tem e tudo fazem contra os que tudo tem e nada fazem! “

C.C. No livro Manifesto Canibal, escrito por você e César Souza, você discorre sobre a estética Kanibaru Sinema, filmes em qualquer formato e sem orçamento. Alguma relação com o movimento Dogma?
Baiestorf: Kanibaru Sinema não pretende ser uma escola estética, nem um movimento, muito menos um amontoado de regras que as pessoas devem seguir. Kanibaru Sinema - mas poderia ser usado qualquer outra expressão -, é uma pequena mostra de que é possível fazer seus filmes, seus fanzines, suas músicas, com o que você tem em mãos! E depois de feito é possível largar suas produções por aí para que as pessoas as assistam, e o debate está criado! O Kanibaru Sinema é uma declaração de guerra dos que nada tem e tudo fazem contra os que tudo tem e nada fazem! Só isso!!!

C.C. O que te motiva a fazer filmes?

Baiestorf: Sou hiper ativo, tenho que estar sempre fazendo alguma coisa!!! E fazer filmes é sempre uma aventura, nenhuma produção é igual a outra! Quando vejo os noticiários de jornais e TV tenho idéia prá filmes o tempo todo, gosto de fazer filmes sobre padres, políticos, militares e vários outros tipos de caras que usam seus empregos prá tirar proveito próprio! Mesmo fazendo filmes exagerados, eles sempre tem um fundo crítico com relação à algum assunto social, religioso ou ideológico, não creio que dá prá abrir mão disso! Claro que como filmo rápido, geralmente filmo um média-metragem em apenas 5 dias, nem sempre consigo aprofundar essas críticas nos roteiros, mas sempre tento fazer isso! Outra coisa que me motiva a continuar fazendo filmes é a possibilidade infinita de narrativas que o cinema permite explorar, por isso tenho tantos filmes surreais, absurdos, que discutem as possibilidade do cinema como instrumento de transformação.

C.C. Filmes indigestos têm mercado? Como rola a distribuição e os circuitos de exibição?
Baiestorf:
Tem muito espaço, pessoal curte prá caralho!!! Quem produz este tipo de filme sabe que há muita gente cansada dessas mega-produções dos grandes estúdios onde tudo é tão perfeitinho que soa falso demais! A vida não é perfeita, o humano não é perfeito!!! Muita gente se identifica com meus filmes imperfeitos!

C. C. Qual a relação da música com seus filmes?
Baiestorf: Antes de escrever um filme eu gosto de saber que sons vou usar na trilha sonora. Às vezes não é possível ter a trilha sonora antes de escrever o roteiro, então procuro algumas bandas/sons na linha do que tenho em mente e filmo usando algo similar e aí, antes de editar o filme, tento achar os sons que se encaixem no clima que quero passar com cada cena. Prá mim a trilha sonora é 50% do filme, sem música eu não saberia fazer nenhum filme, não sei fazer filme sem som!!!

C. C. Conta pra gente, o que rola nos bastidores?

Baiestorf: Gurizada vê aquele monte de atrizes peladas nos meus filmes, aquelas cenas de putaria e acha que as filmagens são umas festas, mas é justamente ao contrário. Como filmo rápido e tentando baratear a produção de todas as maneiras possíveis, sou extremamente centrado no que estou fazendo e exijo comprometimento completo com o filme de quem está trabalhando nele. Não gosto de gente conversando bobagens no set de filmagens, não gosto de gente bebendo ou chapando durante o trabalho. As filmagens são maçantes e cansativas, não é lugar prá bobo alegre punheteiro, por exemplo!

O Doce Avanço da Faca, filme mais novo de Petter Baiestorf, na Sessão Maldita. Filmado em 2010 e ainda inédito por problemas de distribuição, “O Doce Avanço da Faca” é um média-metragem sobre fanáticos religiosos que perseguem quem não compartilha dos seus ideais. Em dois dias Baiestorf escreveu o roteiro e com a ajuda dos colaboradores habituais filmou tudo em apenas cinco dias, com orçamento pouco superior a mil reais. Circulando em cineclubes, mostras e festivais, o filme tem gerado discussão, mas é claro, tendo em mente que “O Doce Avanço da Faca” é um filme debochado, exagerado e que em momento nenhum se leva tão à sério assim.


Quem quiser cópia dos filmes do Petter Baiestorf pode entrar em contato com ele mesmo pelo e-mail
baiestorf@yahoo.com.br